Piso e previdência obrigatória: se esse projeto passar, motoristas de app terão novas regras
Mudanças prometem regulamentar motoristas de aplicativos no Brasil, equilibrando autonomia e segurança social.
O modelo de trabalho por aplicativos, que movimenta milhões de entregas e corridas diariamente no Brasil, pode estar prestes a passar por uma mudança estrutural sem precedentes.
Em discussão avançada na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei Complementar (PLP) nº 152/2025 surge como uma tentativa de reorganizar o setor, equilibrando dois pilares historicamente conflitantes: a autonomia dos motoristas e entregadores e a garantia de proteção social mínima.
Resultado de debates iniciados ainda em 2023, em parceria com o Ministério do Trabalho, o texto busca criar um marco regulatório específico para profissionais que atuam em plataformas digitais de transporte e entrega, encerrando anos de insegurança jurídica e disputas judiciais.
PLP 152/2025 cria um regime jurídico próprio para motoristas de aplicativo

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Um dos pontos centrais do PLP 152/2025 é a criação de um regime jurídico exclusivo, afastando de forma definitiva a aplicação da CLT ao setor.
Com isso, o projeto reforça que motoristas e entregadores continuarão sendo trabalhadores autônomos, sem vínculo empregatício formal.
Em contrapartida, o texto estabelece uma rede obrigatória de proteção social, algo inexistente no modelo atual. A proposta reconhece a especificidade do trabalho mediado por algoritmos e tenta preencher lacunas que hoje deixam os profissionais expostos a riscos financeiros, previdenciários e físicos.
Pisos, tetos e contribuições: o que muda na prática
O projeto propõe regras inéditas que impactam diretamente a remuneração e a relação com as plataformas digitais. Entre os principais pontos estão:
- Piso mínimo por viagem: fixação de R$ 8,50 para corridas entre 2 km e 5 km, criando um patamar básico de remuneração.
- Teto de retenção das plataformas: as empresas não poderão reter mais de 30% do valor total da corrida, limitando comissões consideradas excessivas.
- Previdência obrigatória: contribuição compulsória de 5% sobre a base de cálculo, com participação financeira das plataformas, diferente do modelo atual, onde o recolhimento é facultativo e integralmente arcado pelo trabalhador.
Essas medidas buscam garantir previsibilidade de renda e maior segurança financeira aos profissionais.
Limite de jornada e proteção à saúde do trabalhador
Outro ponto sensível abordado pelo PLP 152 diz respeito à saúde física e mental dos motoristas e entregadores. O texto propõe um limite máximo de 12 horas diárias de conexão, com o objetivo de coibir jornadas exaustivas e reduzir riscos de acidentes.
Além disso, as plataformas seriam obrigadas a contratar seguros privados que cubram acidentes, invalidez permanente e morte, transferindo parte da responsabilidade hoje concentrada exclusivamente no trabalhador.
Fim do ‘segredo’ dos algoritmos e mais transparência
No campo tecnológico, o projeto enfrenta um dos maiores pontos de crítica do setor: a opacidade dos algoritmos. Pela proposta, os profissionais terão direito a informações claras sobre valores, distância e condições da corrida antes da aceitação.
Também fica garantido o direito de contestar bloqueios e suspensões, com análise feita por revisão humana, eliminando decisões totalmente automatizadas e sem justificativa.
Divergências, críticas e o possível efeito dominó
Apesar dos avanços, o projeto divide opiniões. Especialistas alertam para um possível efeito dominó no mercado. Para analistas como Leite Ribeiro, os custos adicionais podem ser repassados ao consumidor final, reduzindo a demanda por corridas e entregas. “Há o risco de um cenário em que todos percam”, avalia.
Por outro lado, entidades como a CNTTL (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística) comemoram o avanço. Segundo seu presidente, Paulo João Estausia, a regulamentação é essencial para garantir renda digna e corrigir um modelo no qual plataformas lucram bilhões sem assumir os custos básicos da operação.
Um novo capítulo para o trabalho digital no Brasil
Se aprovado, o PLP 152/2025 pode inaugurar uma nova era para o trabalho por aplicativo, estabelecendo regras claras, direitos mínimos e responsabilidades compartilhadas.
O desafio será encontrar o ponto de equilíbrio entre proteção social, viabilidade econômica e inovação tecnológica, um debate que promete seguir no centro das atenções nos próximos meses.